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sexta-feira, agosto 11, 2017

Microconto do dia:


Tudo virou pó. Menos as sobrancelhas, pois eram definitivas.

Palavra do dia: Europa (30 jul. 2017)



Macau, Hong Kong, Beijing, Buenos Aires, Lima, ilha de Páscoa, pintava no mapa os lugares que queria conhecer e não podia. Um dia, estava pintando os países todos da Europa e, quando foi pintar com seu lindo lápis azul o mar Mediterrâneo, escorregou e caiu na água. Nunca mais foi encontrada.


#microcontoescambau

Palavra do dia: resposta (29 jul. 2017)


Um vinha do país da pergunta e se chamava “Por quê?”. O outro vinha do país da resposta e se chamava “Porque sim” ou “Porque não”, de acordo com o humor do dia.

 #microcontoescambau

Palavra do dia: bobina (28 jul. 2017)


 A bobina da memória enroscou.

#microcontoescambau

Palavra do dia: semana (27 jul. 2017)



Os humanos começavam a semana pensando que acordaram na segunda, mas ao piscar já estavam na quinta-feira. Bobinhos, não sabiam que o Senhor Tempo, apressado que só ele, excluiu todos os outros dias, mantendo a existência apenas da quinta-feira.
#microcontoescambau

Palavra do dia: formigueiro (25 jul. 2017)



Adorava quando a vizinha, muito gentil, trazia para ela um bolo formigueiro inteirinho e quentinho. Até descobrir que a vizinha lhe tinha verdadeiro ódio e que o nome do bolo não era fantasia.
#microcontoescambau

Palavra do dia: verme (24 jul. 2017)


De corpo em corpo, o verme enche o papo.
#microcontoescambau

domingo, julho 23, 2017

Palavra do dia: licor


Sonhou que era humano e que tomava uma taça de licor de 

amarula. Suspirou feliz quando acordou e viu que era o

elefante de sempre.


Palavra do dia: licor



Após cada cálice do licor amargo da vida, engolia um 

bocado de mel.

Palavra do dia: bota (21 jul. 2017)



Study of a nude - Toulouse Lautrec (1882)

De sutiã e botas, recebeu o freguês exigente. Pés aquecidos, alma congelada.

Palavra do dia: caribe (20 jul. 2017)



Chegou ao caribe e por ele foi devorado. Em vez de ir a um lugar, foi a um antropófago.

quarta-feira, julho 19, 2017

Palavra do dia: aquário (17 jul. 2017)



Naquele pequeno aquário transparente e cheio de água, de pedrinhas, de plantinhas, com um gigante vindo de vez em quando com um potinho parecido com um saleiro e despejando uma comidinha sobre a água ou fazendo biquinho no vidro, o peixinho pensava: “Eta vida besta, meu Deus!” 

Texto: Nanci Ricci
Desenho:  Miguel F. Ricci

terça-feira, julho 11, 2017

Palavra do dia: submarino (11 jul. 2017)


Colecionava submarinos e engolia sapos. Era de câncer, um signo aquático. 

segunda-feira, julho 10, 2017

Palavra do dia: condomínio


Quando foram quebrar a parede do apto. 31 do Condomínio Neve Negra, encontraram um gato preto cimentado em meio aos tijolos. De pelúcia.


Palavra do dia: brigadeiro (9 jul. 2017)


Ano 3012. Dentro de uma caixa hermeticamente fechada, encontram uma bolinha marrom, muito macia e com dizeres que não entendem: “Brigadeiro”. Experimentam e concluem: “Se foram capazes de inventar algo tão delicioso, não deviam ser de todo maus” (tradução livre).


Palavra do dia: alumínio (8 jul. 2017)



Alumínio das panelas reluzentes, nenhum copo sujo na pia. Não há pó à vista nem fora da vista. Tudo em ordem. É o que queria, afinal. Limpeza, ordem e solidão. Por fim, suspira: “Que saudades da casa cheia de gente, de conversa, de risada e de desordem. Que falta me faz uma pia cheia de louça.”

sexta-feira, julho 07, 2017

Palavra do dia: mostruário 




Na sala do cirurgião plástico, diante do mostruário, escolheu, decidido, os pares de peitos que, finalmente, caberiam naquele sutiã 52 que comprou havia 10 anos.

quinta-feira, julho 06, 2017

Palavra do dia: medalha




Medalhas na parede descascada. Falta incentivo, falta patrocínio. Mas não faltam fé, garra e esperança para aqueles pés que, descalços, correm e sangram para a próxima corrida.
Texto: Nanci Ricci
Ilustração: Miguel F. Ricci

quarta-feira, julho 05, 2017



Palavra do dia: ponteiro



Pararam. Não aguentavam mais levar uma vida de não parar nem um minuto. E não adiantou dar 
corda, se de corda fosse, nem trocar as pilhas, se delas dependesse, nem dar uns petelecos, se eles resolvessem a situação. Eram ponteiros que não tinham mais tempo para relógio algum.



Participando do concurso de microcontos Escambanautas <https://www.facebook.com/groups/cambanautas/> de julho/2017.

Palavra do dia: lago (4 jul. 2017)



Quando aquele moço bonito não aparecia, ficava todo tristonho por não se ver refletido em seu olhar. Era um lago apaixonado por si mesmo.

Participando do concurso de microcontos Escambanautas <https://www.facebook.com/groups/cambanautas/> de julho/2017.

segunda-feira, julho 03, 2017

Palavra do dia: pote



Entre os potes da casa, o que estava sempre feliz, pois não lhe faltava conteúdo, era o pote de mágoas.

Participando do concurso de microcontos Escambanautas <https://www.facebook.com/groups/cambanautas/> de julho/2017.

domingo, julho 02, 2017

Microconto sem palavras



Mais uma bala amarga e perdida que acha mãe com bebê dentro. Tristeza perdeu para sempre a esperança de não ser mais triste não (licença, poetinha).

quarta-feira, junho 28, 2017

Miniconto com a palavra "carinhoso" (escrito em primeiro de fevereiro de dois mil e dezessete)



Rubens estava apaixonado por Linda. Ouvia sem parar “Carinhoso”, de Pixinguinha. E chorava nos versos “Meu coração/ Não sei por quê/ Bate feliz/ Quando te vê”. E suspirava ao vê-la passar. Não se declarava por se achar o mais feioso e sem graça dos seres. Linda se casou com Caco. Tiveram um filho: Rubens.

sábado, junho 17, 2017

Palavra do dia: destino



Livrara-se do destino de loucura da família e escapou dos hospícios e de um ir e vir incessante. Brilhante e inventivo, também guardou por toda a vida um segredo para que pudesse manter-se no anonimato. Assinava como Damião dos Santos, em vez de seu verdadeiro nome: Alberto Santos Dumont. 

sexta-feira, junho 16, 2017

Palavra do dia: loucura


Desfaziam-se os pares, braços e pernas entrelaçavam-se freneticamente e o momento era de total loucura quando elas se juntavam. Só sossegavam quando a máquina de lavar parava e elas eram estendidas no varal.

quarta-feira, junho 14, 2017

Palavra do dia: reunião



Na festiva reunião de amigos, todos conversavam alegremente, pelo aplicativo de mensagens do celular, cada qual com um amigo ausente.

terça-feira, junho 13, 2017

Microcontos com a palavra "olhar"


1) Não era um olhar qualquer, mas sim um olhar que matava mais do que bala de carabina. Bastava um só relance para que os filhos arteiros parassem na hora e se sentassem, comportados que só vendo.

2) No retrato que dela pintou faltavam os olhos. O pintor disse que só os colocaria quando conhecesse a alma da mulher. O famoso quadro “Mulher sem alma” recebe, diariamente, milhares de olhares.


sexta-feira, junho 02, 2017


Palavra do dia: adeus

“Adeus”, disse antes de sair e bater a porta com força arrastando mala e cuia. Chegou até a esquina e mudou de ideia. Voltou. Depois que juntou os trapos, era a vez 23ª que fazia isso. Sempre culpava o signo pelo destempero e pela indecisão.

quinta-feira, junho 01, 2017

Palavra do dia: labirinto


Para escrever o texto com a palavra “labirinto”, queria mostrar que entendia de mitologia. Começou falando em Minos, Pasífae, Touro, Minotauro, Teseu, Ariadne... De súbito, perdeu o fio da meada e embaralhou-se no labirinto de suas ideias. Mais uma vez desperdiçou a oportunidade de mostrar que era sabidinho. 
Teseu combatendo o Minotauro.
Jean-Étienne Rameymármore, 1826, Jardins das Tulherias, Paris (Fonte: Wikipedia)

quarta-feira, maio 31, 2017

PALAVRA DO DIA: BRISA


Velho, cansado e frustrado por ter trabalhado toda uma vida em uma função de que não gostava. Oitenta anos sendo para-brisas quando, na verdade, sempre desejou ser para-raios.

terça-feira, abril 25, 2017

Novos microcontos

2 abr. 2017 (Palavra do dia: beijo)
Dava um beijo na santa e corda no relógio, antes de ir trabalhar, religiosamente. No dia que tentou dar corda na santa, depois do beijo no relógio, perdeu completamente a fé, nos santos, nos homens e no tempo.


3 abr. 2017 (Palavra do dia: veleiro)
Para ser chamado pelo verdadeiro nome, pegou um lençol e passou a se mover com os braços levantados e o lençol voando sobre sua cabeça. Que parassem de chamá-lo de Canoa. Ele era um veleiro, sim, senhor. “Ô, Barco a vela, tá na hora do remédio”, disse o enfermeiro, assim que o viu deslizando no mar.


4 abr. 2017 (Palavra do dia: mulher)
Beijou com batom a cueca do marido e o esperou com ela nas mãos, segurando o riso da piadinha que estava fazendo. Assim que ele entrou e viu, ficou bege, começou a tremer, a suar, a gaguejar que não era nada daquilo que ela estava pensando. Perdeu a cueca, a mulher e a vida.


5 abr. 2017 (Palavra do dia: remédio)
Não saía de casa sem remédio para diarreia, dor de cabeça ou um provável AVC. Desde jovem. Foi piorando com o passar dos anos. Tinha certeza de que qualquer dia ia se desmanchar em plena avenida. Qualquer dorzinha já o fazia começar a se despedir da vida. Morreu de velhice, sem nunca ficar doente.


Enquanto ele não lhe invadia o corpo, tomando conta de seus pensamentos, de seus sentimentos mais profundos, nocauteando-lhe os neurônios, ela não conseguia dormir. Suava, rolava na cama, era toda agitação, agonia e êxtase. Somente ele, o Rivotril, era o remédio capaz de combater tamanha insônia. 


7 abr. 2017 (Palavra do dia: ovo)
Saiu do sítio arqueológico levando para casa os dois estranhos ovos que lá estavam. Cuidou deles como uma mãe galinha cuida dos seus. Aqueceu-os, fez neles carinho, conversou e leu para eles. Em 2019, a casca dos dois começou a lascar-se. Conteúdo: um casal de carnossauro. Fim da raça humana.


10 abr. 2017 (Palavra do dia: sangue)
“Não tenho sangue de barata não!”, vivia dizendo a todos o tempo todo. Numa manhã fria, depois de um sono imensamente confuso e transtornante, percebeu que o corpo estirado na cama não era mais seu. Os pensamentos e os sentimentos eram dele, mas o corpo, agora, era de um imenso inseto.


13 abr. 2017 (Palavra do dia: flauta)
Não se achava com aptidão para nada nem coisa nenhuma. Em busca de sentido, pegou a flauta que não sabia tocar e saiu caminhando pela estrada “tu-tu-tu”. Depois de andar dezenas de quilômetros, resolveu olhar para atrás. Havia uma multidão seguindo-o doce e silenciosamente, como a seguir um deus.


14 abr. 2017
Pôs-se a escrever numa Sexta-Feira Santa: “Num meio dia de fim de primavera, tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à Terra. Veio pela encosta de um monte. Tornado outra vez menino, a correr e a rolar-se pela erva... E a rir de modo a ouvir-se de longe... Tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir de segunda pessoa da Trindade, onde tinha de ficar sempre sério. E subir para a cruz e estar sempre a morrer. Hoje vive na minha aldeia comigo. É uma criança bonita de riso e natural... A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as cousas... Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu no colo e conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer. E dá-me os sonhos teus para eu brincar”. E assinou: Alberto Caeiro.


19 abr. 2017 (Palavra do dia: sogra)
Não queria ter sido mãe pois tinha medo do dia em que se tornaria sogra. Era boa demais para carregar todo o estigma que vem junto com esse título. No dia do casamento do filho, noivo e convidados dentro da igreja, noiva pronta para entrar. Cadê ela, a sogra? Fugiu na garupa da moto do vizinho.


20 abr. 2017 (Palavra do dia: ópera)
Tinha ódio a sons alheios e o vizinho de cima amava ópera. Quebrou 33 cabos de vassoura e arruinou o teto. Zilhões de xingamentos, de tampões de orelha e 3 anos depois, o vizinho partiu. Cabeça aliviada no travesseiro. Dias depois, ouve “tchu-tchu-tcha”. Vizinho novo no pedaço. Amante de funk.


22 abr. 2017 (Palavra do dia: almanaque)
Era cheio de manias. Uma delas era só conseguir fazer o n. 2 no banheiro lendo um Almanaque do Cascão. Quando a publicação estava esbagaçada de tanto uso, ficou entupido várias semanas até adquirir nova mania para poder fazer o n. 2: estudar o dicionário, só a letra F. Virou o Sábio da Efelogia.


24 abr. 2017 (Palavra do dia: língua)
Fabricava relógios de cuco desde muito jovem. Um dia, sentindo-se velho e cansado, construiu um relógio cujo pássaro não só saía da casinha para indicar a hora, mas também mostrava a língua, zombando de nós. O tempo sabe passar, mas nós não sabemos. 


25 abr. 2017 (Palavra do dia: terminal)
Vovozinho com mais lembranças do passado do que do presente. Queria voltar para a casa de sua mãe, que havia partido havia uns 50 anos. Colocou umas roupas em uma mala e foi para o terminal de trem. No quarto do bisneto, onde havia um Ferrorama montado no chão.

terça-feira, março 28, 2017

Microcontos em homenagem ao dia do revisor, 28 de março


1) Era um revisor de textos apaixonado por vírgulas. Assim, o filho dele só podia ter um nome: Virgulino. Virgulino era tinhoso, um sujeito valente, e se desinteressava por completo da carreira do pai. Preferiu o cangaço, de onde tornou-se rei.

2) Era um revisor de textos daqueles bem chatos e insuportáveis. Vivia corrigindo todo o mundo. Nenhum deslize escrito ou falado escapava de sua correção. As pessoas viviam evitando-o. Quando morreu, os colegas de trabalho enviaram-lhe uma coroa com os dizeres: “Segue em pas amigo. Dos seus amigo de servisso.”

sábado, março 25, 2017

Microconto "A garça sem graça"



Foto: Regina Mancebo

Todos os dias ela faz a mesma coisa. Sobe na cerca e não consegue descer. Sem graça, a garça disfarça.

quarta-feira, março 22, 2017


Microconto nublado




O digitador do jornal fazia o trabalho dele olhando para o celular e rindo das piadinhas nas redes sociais. Num dia de nuvens, foi publicada a previsão do tempo por ele digitada: “Cú nublado a parcialmente nublado”. Foi para o olho da rua, com o -- na mão.

terça-feira, março 21, 2017




Microconto lunar ou lunático




Ela bem que tentou se despregar do céu para não ficar tão só. Por ser-lhe impossível, havia épocas que, de tristeza, ela minguava, minguava, até desaparecer. Refazia-se depois, num crescente contínuo, até brilhar como ninguém. (Criado em 20 fev. 2017.)

quinta-feira, março 16, 2017

Microconto com a palavra "trem" (criado em 24 jan. 2017)




Pôs para tocar na vitrola: “Ói, oia o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, oia o trem...”. Dormiu. Sonhou que entrava num trem onde estavam sua mãe, seu irmão e seu pai. O disco acabou no instante em que deu o último suspiro.

quarta-feira, março 15, 2017


Microconto com a palavra "parede" (criado em 22 jan. 2017)





Depois que o prefeito mandou apagar todos os grafites pintados nas paredes da cidade, seus habitantes passaram a andar pelados e pintados, dando cor ao que agora é cinza. 

terça-feira, março 14, 2017

Microconto com a palavra "trança" (criado em 21 jan. 2017)


Festa de São João. Uma trança de cada lado dos cabelos, vestido de chita com calçola de renda por baixo, sardas falsas nas bochechas, batom vermelho fora do contorno da boca. Hora da dança, ninguém quer ser seu par. Lágrimas verdadeiras escorrem-lhe pelas faces, apagando para sempre as falsas sardas.

segunda-feira, março 13, 2017

Microconto inspirado na foto de Valéria Vaz



Era para ser um gato preto. Até descobrir a crueldade do mundo para o qual viria, em especial com os gatos pretos. Amarelou.

sexta-feira, março 10, 2017

O COQUEIRO E O MAR



Foto: Cláudia Carvalho Neves


Era o mais respeitador dos coqueiros e o único que, logo ao 

despertar, se curvava para saudar o Velho Mar. (Criado em 

10 fev. 2016.)

quinta-feira, março 09, 2017





Não se reconheceu no reflexo do espelho, não era mais o homem dantes. Ficou aliviado de não mais pertencer à humanidade e suas misérias.

Microcontos com a palavra "comida"


1) A comida era pouca. A fome era muita. Aos filhos, dizia

que já havia comido na rua para que eles pudessem comer o

pouco que tinha. Exausta e com fome, ia dormir. Ouviam-se 

roncos no cubículo. Eram os lamentos da faminta barriga da 

mãe.



2) A marmita com a comida passara a noite em cima da pia. De manhã, colocou-a na mochila e foi trabalhar. No almoço, abre a marmita e vê que está inundada de formigas, em meio ao arroz, feijão e bife. Ainda bem que são daquelas formigas que fazem bem para as vistas, pensa, antes da primeira garfada. 

quarta-feira, março 08, 2017

Microcontos para o quadro no poste


Foto: Valéria Vaz

1) Dormia encostadinho no poste que tinha um quadro pendurado sob os fios. Em seu sonho, corria naquela paisagem do mar com coqueiros. Era um cachorro abandonado, mas, em sonho, era feliz.


2) Quis dar uma de pintora. Arrancou de uma revista uma página com a imagem do mar com coqueiros para copiar. Tela e tintas diante de si, pintou, retocou, impressionou-se com o resultado. Péssimo. Só servia para ser pendurado em um poste para espantar moscas.

terça-feira, março 07, 2017

Microconto do dia


Leu num livro "Nenhum homem é uma ilha isolada.". Repetiu para si "Não sou uma ilha. Não sou uma ilha.". Tentou, tentou de novo, tentou mais uma vez espalhar-se na multidão. Foi em vão. Voltou a ser porção de terra cercada de água por todos os lados.

segunda-feira, março 06, 2017





Microconto carnavalesco




Carnaval. Não sabia se usava chifres e rabo pontudo do capiroto, ou asas de anjo, ou orelhas de Mickey, ou saia havaiana e colar de flor de plástico, ou se saía apenas com a mesma máscara que colocava todas as manhãs assim que abria os olhos. (Criado em 25 fev. 2017.)

Microconto com a palavra "juiz"


“Juiz hijo de puta”, ouviu da arquibancada, logo após decretar um pênalti. Segurou a bola debaixo do sovaco, colocou o apito na boca e apitou bem longamente, encerrando o jogo e ignorando os minutos de acréscimo que faltavam. Aceitava todo o tipo de xingamento. Menos o xingamento de sua mãe. (Criado em 16 jan. 2017.)


domingo, março 05, 2017


Gaivota libriana. Passou horas diante do mar: "vou ou não vou?". Voou. (Criado em 28 jan. 2016.)


Foto de Cláudia Carvalho Neves
Microconto de Nanci Ricci

Microconto com a palavra "lenha"



Lenha crepitando na lareira, chaleira chiando na cozinha, grilos cricrilando no negro da noite. Os homens caem em sono profundo e começam a roncar, ocultando todas as outras onomatopeias até o cocoricó do galo. (Criado em 14 jan. 2017.)

Microconto com a palavra "trator"


- Você é uma metralhadora. Fala demais.
- E você é um trator. Passa por cima dos sentimentos mais sublimes que alguém possa ter.

Assim, metralhadora e trator viveram juntos, e se detestando, até a morte. Mas, no túmulo da família, a estátua de cada um foi colocada de costas uma para a outra. (Criado em 13 jan. 2017.)

Microconto com a palavra "trópico"


Trabalho de escola: decalcar e pintar um mapa-múndi. O menino encantou-se entre as linhas, os pontos, os tracejados, as cores. Mergulhou nos rios e nos mares da Terra. Andou pela vastidão do mundo e encantou-se com sua diversidade e beleza. Perdeu-se para sempre entre os trópicos. (Criado em 11 jan. 2017.)

Microconto com a palavra "dúvida"



De malas prontas e ávidas para verem novas paisagens, ficava horas em pé, no meio da sala, matutando: vou ou não? Foi assim ao longo de seus 50 anos de idade. Dúvida se viajava ou não, se pintava ou não os cabelos, se se separava ou se continuava casada... Era de Libra, com ascendente em Sagitário. (Criado em 10 jan. 2017.)

Microconto com a palavra "alma"


De tanto ouvir de seu pai “Minha filha não vai namorar nem casar. Ela tem uma alma pura.”, caiu no mundo e se tornou uma doadora de corpo. Seu corpo era de quem o desejasse. Nem pura nem impura, agora sentia-se livre. (Criado em 9 jan. 2017.)

Microconto com a palavra "trevo"


Era um sujeito muito azarão. Difícil existir outro igual. Tropicou e, estatelado na calçada, viu um trevo da sorte que, resistente, saía da fresta de um muro. Não teve dúvida. Arrancou-o e levou-o para si. Não deixou de ser o maior dos azarões, mas agora era também dono de um trevo da sorte. (Criado em 7/1/2017.)

Microcontos com a palavra "surdo"



Surdo que era, era todo ouvidos quando alguém mencionava o nome dela: Marília. Daí, ficava todo prosa e falava sem parar dos olhos, da boca, dos cabelos e do rebolado de Marília. Era completamente cego para as outras mulheres. (Criado em 6/1/2017.)




Era surdo de pedra. Mas ninguém melhor do que ele para ouvir o cantar dos pássaros, o raiar do dia e o vaivém do mar. (Criado em 6/1/2017.)

Microconto com a palavra "livro"



Amava quando, no quarto, ela tirava o penhoar e, com sua camisola transparente, ia se deitar. Ficava extasiado quando ela o pegava e o acariciava de um jeito só dela. Sentia-se completo quando ela percorria-lhe trecho por trecho com os dedos ávidos e os olhos úmidos. Era um livro de cabeceira feliz. (Criado em 18/1/2017.)